25/09/2016

COMO EU AQUEÇO - JACQUELINE CHOI + BELA HORVATH

Jacqueline Choi.
Foto do arquivo pessoal
Jacqueline Choi é uma violoncelista coreana-americana, solista, participa de inúmeros projetos e séries importantes de música de câmara, inclusive com Itzhak Perlman. Estudou em algumas das melhores escolas dos Estados Unidos: New England Conservatory, Juilliard e Manhattan School of Music. Acabou de começar uma residência artística com o Euclid Quartet na Universidade de Indiana South Bend, onde dá aulas e palestras.

Bela Horvath. Foto do
arquivo pessoal.
Ela tinha topado um encontro via skype para essa entrevista. A entrevista com Bela Horvath seria em outro momento. Mas aí me fizeram uma surpresa: estavam os dois lá do outro lado da tela, e a entrevista foi conjunta, o primeiro Como Eu Aqueço duplo do blog! 

Mas, pera, quem é Bela Horvath? É um violinista húngaro, também ele solista e camerista internacional. Em 1999 Bela foi o competidor mais novo do concurso Carl Flesch, ficou em 4o. lugar e ainda por cima faturou o prêmio de melhor interpretação da peça composta especialmente para aquele concurso. Estudou na Academia Franz Liszt de Budapeste, e depois Pinchas Zukerman o convidou para ser seu aluno na Manhattan School of Music. Bela também foi professor da Manhattan e do Instituto Heifetz. 

E esses são os queridos entrevistados dessa edição de Como Eu Aqueço.

Eia aqui 2 indicações de trilha sonora para a leitura desta entrevista: Concerto para violino de Tchaikovsky e trio de Brahms em Si maior


Helena Piccazio - Qual a primeira coisa que vocês fazem quando tiram o instrumento do estojo?

Bela Horvath - Eu acredito que o aquecimento é muito, muito importante - não sou o único, certo? No meu caso, eu sempre começo tirando o violino do estojo já com a mão esquerda, porque esse é o lugar dele. Isso é um reflexo, uma resposta automática ao instrumento, eu o seguro com a mão esquerda logo de cara. Aí o arco, com a mão direita. Comecei essa prática anos atrás, foi meu professor (Pinchas Zukerman) que me sugeriu isso.

Helena - Porquê?

Bela - Tem algo a ver com o funcionamento do cérebro, porque você pode separar os dois lados, direito e esquerdo, e aí aprender como colocá-los juntos de novo. E isso é importante, saber a sensação física de pegar o violino sempre com a mão esquerda, todo o tempo. Inclusive quando estou no palco, eu não seguro o violino com a mão direita, senão parece que tem algo errado. Isso vem primeiro. Aí eu checo o cavalete, passo breu se preciso. Presto atenção em como guardo o violino, para que da próxima vez ele esteja exatamente do mesmo jeito, e então não tenho que fazer muito, já estou pronto pra começar. Em seguida eu afino o violino, obviamente. A corda lá é a primeira nota que toco, todo dia. Depois disso eu geralmente sigo para as escalas, ligadas em 2, 4, 6, 8, 12, 16, 24 notas por arco, primeiro de 3 oitavas, depois 4 oitavas. Me preocupo com tudo que sei que preciso fazer, pode ser mudança de posição, afinação, produção de som, etc. E é uma combinação de coisas, porque não é um ponto só que você precisa trabalhar. Claro que nem tudo é igualmente fraco ou igualmente forte, e é que isso vai determinar onde você precisa pôr sua atenção.

Helena - Você varia os exercícios ou é sempre a mesma coisa?

Bela - Basicamente a mesma coisa: escalas. Também estudo um pouco de alguma peça que me lembro de errar ou ter algum tipo de problema com ela, geralmente um problema técnico. Sabe, quando a gente tem esses bloqueios na cabeça do tipo “Ah! Nunca consigo tocar esse pedaço”? Então estudo essas passagens. Depois algumas terças, oitavas, décimas. Toco um pouco de Bach, Paganini, algo assim. Levo mais ou menos meia hora, fazendo isso.

Helena - A escala que você faz é sempre na mesma tonalidade ou não? Depende do repertório que você tem que tocar ou não?

Bela - Eu poderia fazer até 2 ou 3 escalas, uma menor, uma maior, talvez escolher mais uma. Quando faço 4 oitavas é um pouco diferente. Mas eu não faço a mesma escala durante a semana toda, por exemplo, não é necessário.

Helena - Você faz outros tipos de exercícios ou você trabalha tudo que tem que trabalhar nas escalas?

Bela - Eu faço alguns exercícios de arco, claro. Um pouco de martelé, collé, coisas assim, para a flexibilidade dos dedos da mão direita, para trazer de volta a memória da sensação de como é fazer isso. Ensinar essas coisas regularmente pode ajudar muito, porque você está se lembrando, assim como ensinando corretamente. Muitas vezes abro o violino pela primeira vez no dia quando vou dar aula, então o assunto já está ali - como os músculos funcionam, como eles respondem - e isso ajuda. E no meu aquecimento fico apenas relembrando aquela sensação, de tocar o instrumento. Uma vez que isso está lá, você pode relaxar seus músculos, e eles podem tocar porque já estão aquecidos. Aí é basicamente descobrir como você vai trabalhar naquele dia, aquela peça específica que você precisa aprontar. Porque eu não estudo uma música inteira com a mesma intensidade. Tem pedaços dela que eu toco, mas não os trabalho realmente. Hoje em dia meu estudo é assim. Vamos pegar uma peça que eu conheço como exemplo, o concerto de Tchaikovsky: eu tocaria o começo, pensando no vibrato, em como entrar e sair da frase - assim você não toca achatado -, o entre-notas: o tempo e o espaço entre as notas, a conexão, etc etc, a harmonia, ritmo, isso é o que cria tensão musical. Em seguida eu pulo para passagens técnicas, e se vou ao segundo tema, eu o tocaria uma ou duas vezes, pensando nas mesmas coisas do começo, mas eu não o estudaria super lento sem vibrato, por exemplo.

Helena - E você, Jacqueline?

Jacqueline Choi - Voltando à primeira pergunta, quando se fala de cello é um pouco diferente. No caso de estudantes iniciantes, eles são mais novos, trazem seu primeiro cello e não têm ideia do que fazer, a primeira coisa que os ensino é tirar o arco primeiro, porque os cellos pequenos vêm numa capa mole (soft case), e se você tirar o seu cello primeiro, é perigoso para o arco ficar caído ali dentro da capa. Então você tem que ensinar a tirar o arco primeiro, apertar a crina, passar breu, pousar em algum lugar e só então tirar o cello da capa, deixando-o deitado no chão enquanto isso. E isso é uma coisa importante para cello especificamente. Aí você pega o cello e ajusta o espigão na altura certa para o estudante, porque no começo eles não sabem, mas depois se acostumam e podem fazer isso sozinhos. Depois passamos para a rotina de afinar.

Helena - E qual é o primeiro exercício que você faz para aquecer?

Jacqueline - Primeiro de tudo - porque tocar um instrumento é uma ação tão física - faço exercícios para os braços e dedos, músculos, articulações, todas as partes envolvidas, na verdade todo o seu corpo está envolvido, então eu acho que um aquecimento físico em termos de alongamento é importante, mesmo antes de você começar a tocar seu instrumento, mesmo cordas soltas. Então eu geralmente deixo o cello de lado antes de começar, especialmente com meus alunos, me certifico que seus braços estejam alongados e aquecidos antes de começar o aquecimento com o cello.

Helena - E de onde você pegou os exercícios que você usa para esse aquecimento físico? Yoga, pilates, alongamentos simples, etc? O que exatamente você faz?

Jacqueline - Yoga e pilates podem ser muito úteis. Eu sou iogue, apesar de andar um pouco preguiçosa ultimamente… Mas eu vi que ioga ajudou muito o meu físico para tocar, porque eu tive umas questões físicas com meu braço, tive tensão quando toquei por períodos muito longos e estudando muito de uma vez só sem alongar. Percebi que eu estava tensionando muito, então fui a vários fisioterapeutas que me ensinaram alongamentos diferentes, bons para o antebraço especificamente, assim como para as costas e para a postura geral. Para pessoas com tensão para tocar, quiropratas e fisioterapeutas podem ajudar muito. Instrutores de ioga também, mas é importante tomar cuidado, porque certos exercícios vão desenvolver certas partes do corpo que podem atrapalhar para tocar um instrumento, especificamente.

Helena - E depois do aquecimento físico, como você começa com o cello?

Jacqueline - Basicamente eu gosto da sensação de estar bem aterrada no chão, por tocar um instrumento grande e ter que estar sentada o tempo todo, é importante não deixar acumular tensão na parte baixa das costas. Achar a posição mais confortável é o primeiro passo, e aí, quando eu sento com o cello e arco, gosto de começar com cordas soltas. Mas nesse ponto tenho que ser completamente honesta com você, eu não tenho uma rotina completa de aquecimento que é para todo dia…

Helena - Então você faz o aquecimento de acordo com o tempo que você tem e o que você tem que tocar?

Jacqueline - Exatamente. Também tem o nível da peça. Porque vai ter aquela ocasião em que não dá tempo de fazer um aquecimento completo, está um tempo muito frio lá fora e você tem que entrar e tocar um concerto, e tem 10, talvez 5 minutos para aquecer. Então, para uma situação apressada dessas, às vezes é útil para mim me sentar, me colocar naquele modo e tentar tocar, sem aquecer, e ver o que acontece. Às vezes eu arrisco isso. Mas, para estudantes não é algo que eu recomende, especificamente para estudantes mais jovens que deveriam desenvolver a sua rotina e trabalhar o que precisam.

Helena - Então vamos imaginar uma situação: você tem tempo para aquecer e depois tem que tocar algo que é muito difícil. O que seria uma boa sequência de exercícios para você?

Jacqueline - Eu encontraria passagens na peça que são desafios técnicos, tocaria devagar e me certificaria que estou aquecendo as últimas articulações dos dedos, porque eu acho que ter a sensação do instrumento nas pontas dos dedos, ter o contato, construir uma relação entre os dedos e as cordas, realmente ajuda a conseguir aquela sensação boa na sua mão quando você toca, mesmo se você não está completamente aquecido, você vai aquecendo enquanto toca assim.

Helena - E o arco, você teria algo específico para o arco?

Jacqueline - Sim. Posso te dar um exemplo, porque se você tem um Bach ou qualquer peça barroca e você usa arcadas e golpes de arco específicos, se você tem arcadas longas e rápidas para as semínimas, se você tem colcheias que precisam ser mais na corda, tento tocar essas passagens com arcadas diferentes, quantidades e pressões diferentes de arco, e experimento nas cordas soltas, por exemplo, só pra ter a sensação daquela arcada, separadamente da mão esquerda.

Helena - Jacqueline, tem alguma peça ou método que goste de usar para aquecer? Por exemplo, Bela nos contou que gosta de usar Bach ou Paganini. Você tem algo?

Jacqueline - Na verdade sim. Eu uso sistemas de escalas, gosto do sistema do Galamian e também do sistema do Klengel para cello. 

Helena - Então vocês dois variam os exercícios de acordo com o que vocês tem pela frente, mas os aquecimentos são diferentes para estudo e performance?

Jacqueline - Sim, você pode começar com escalas em qualquer tonalidade, e passar por todas as tonalidades, como no sistema do Galamian, ou se você estuda arpejos, você pode fazer o ciclo das quintas para passar por todas as tonalidades, em 3 e 4 oitavas, e acho que isso funciona bem como uma rotina regular de aquecimento no cello. Mas se seu tempo for limitado e você tiver que trabalhar uma peça numa tonalidade específica, acho útil estudar escalas e arpejos naquela tonalidade.

Helena - Então você usaria esse aquecimento de tonalidade específica para performance e o do ciclo das quintas como um aquecimento para o dia-a-dia.

Jacqueline - Sim. Isso é uma diferenciação que faço. Por exemplo, se vou tocar o concerto de Haydn em re maior, eu começo com uma escala de re maior, com um som bom e profundo na corda do, faço alguns sons na corda do, experimento com alguns sons na corda la. Isso seria o aquecimento. E também com os arpejos, terças alternadas, terças, oitavas e sextas.

Helena - E você, Bela?

Bela - Praticamente o mesmo. Se vou tocar uma peça em re maior, então faço re maior. Especialmente no dia do concerto, logo antes de entrar no palco, na coxia. Você não quer simplesmente cair de para-quedas no concerto. Mas eu mudei, eu era daqueles que tinha que ficar tocando até alguém me empurrar pra dentro do palco. Eu queria tocar até o último segundo. Uma vez eu tinha que solar o concerto de Tchaikovsky, e eu toquei do começo ao fim tipo umas 2, 3 vezes antes de entrar no palco, eu tinha uns 16 anos. Eu passei algumas vezes da capo ao fim pra ver o que acontecia, ver no que eu precisava prestar atenção. E então me dei conta que eu estava super cansado. Eu tive que pousar o violino, alongar minhas costas, tentar recuperar um pouco de energia. Toquei a mais ou menos 30, 40% em termos de nível de energia, foi um pouco uma batalha. Eu cometi esse erro algumas vezes depois disso, talvez não tão grave, mas fiz isso de ficar tocando demais antes de uma performance. Hoje em dia não faço mais. Sou bem mais consciente sobre quanto de energia eu tenho que reservar para o concerto.



Helena - Então que tipo de aquecimento você faz atualmente antes de uma performance?

Bela - É similar ao dela, o mesmo tipo de coisa, toco um pouco de escalas, aí trabalho um pouco de mudanças de posição, depende de como me sinto naquele dia. Para mim, certas coisas têm sensações diferentes a cada dia. Às vezes eu sinto que o vibrato está um pouco mais tenso que ontem, ou que as mudanças de posição estão diferentes. Então eu pego uma mudança e a conserto, já sei como fazer isso, o que funciona para mim. Geralmente não é no arco que isso acontece. Eu posso sentir que às vezes está um pouco mais tenso aqui ou ali, então conserto isso. Ambientes diferentes também, eles afetam as pessoas de forma diferente. Em outras palavras, posso tocar para 15 pessoas e ficar realmente nervoso, e também posso tocar para milhares e não ficar nem um pouco nervoso, depende. Dependendo de como os nervos me afetam, eu faço certas coisas, tento consertar algo aqui e ali, tem passagens que me preocupam. Por fim, o que faço é tentar me soltar, realmente aprender a parar de me preocupar e confiar. Porque existe muita pressão psicológica, sabe? Se você está se paralisando, como você consegue tocar? Se você ficar pensando “Toca afinado! Toca afinado! Toca afinado!” Provavelmente você não vai conseguir, certo? Então você tem que ligar a sensação, e sentir tudo, ao invés de simplesmente pensar. Porque não são a mesma coisa, pensar e sentir. Isso é muito importante, tento me soltar e libertar minha mente.

Helena - Você faz alongamentos ou algo do gênero?

Bela - Às vezes, se eu sinto que algo não está muito certo, se tem alguma tensão ou está puxando do lado errado, se não está flexível ou livre o suficiente, aí talvez eu alongue. Mas eu gosto de sentar, não gosto de ficar de pé antes de solar um concerto, por exemplo. Já com música de câmara é outra história. Quando toco música de câmara não aqueço desse jeito. Toco um pedaço de alguma música, algumas escalas, e uma parte importante da música que estou prestes a tocar, ou que não sei bem o suficiente, ou que precisa de muita atenção. Basicamente isso. E aí eu gosto de conversar com meus amigos antes de subir ao palco. Falamos sobre coisas aleatórias, pode ser algo bom, algo engraçado, já aconteceu de entrar no palco quando a gente tinha acabado de dar risada de alguma coisa, e o público não tinha ideia do que estava acontecendo. Mas tenho vontade de conversar com meus amigos antes. Isso aumenta a sensação de “Sim, nós podemos!”, e então não me sinto sozinho no palco, porque, na verdade, eu não quero estar sozinho.

Helena - Vocês têm algum tipo de exercício ou prática para colocar sua mente no estado certo?

Jacqueline - Então, qual é a primeira coisa com a qual as pessoas lidam quando sobem ao palco? Eles ficam nervosas, certo? E você tem que, de alguma forma, dominar isso, entrar no estado onde você pode pensar na música, simplesmente ouvir a música que você está tocando e ser parte da experiência sem se preocupar, pensando na próxima nota. E como chegar a esse ponto? Para mim, uma das coisas que deixa nervosa é não estar familiarizada com o espaço, a sala onde estou tocando, e quando a acústica não é necessariamente a melhor. Especialmente se é um espaço muito seco, você tem que tocar um pouco diferente, tem que se ajustar para tornar aquela experiência confortável para você e para o público. Se eu sei de antemão que a sala é seca, primeiro de tudo, eu nunca estudo usando todo o som, eu nunca toco super forte durante a peça toda. Eu também toco com a surdina de estudo, porque ela aperta e diminui o som do cello, imitando um pouco a sensação da acústica seca. Aí eu tiro a surdina e tento entrar no mundo sonoro do meu cello, esse instrumento que é grande e tão ressonante, um corpo inteiro, eu adoro a sensação de me sentir acolhida dentro desse som. Simplesmente me sento, conectada ao instrumento, e sinto a profundidade das cordas, tento me sentir confortável tirando um som bom e sólido. E trago isso para o palco, essa sensação de me sentir bem e solta, capaz de tirar som independe de quanto você ouve de volta. Isso me ajuda. E, para a concentração: ouvir. Ouvir com orelhas enormes, como disse meu professor, orelhas que se estendem pra fora do palco, pegam a sala de concertos toda, de forma que você sugue todo o som que está vindo e fique realmente sensível à afinação e tudo o mais que está acontecendo dentro desse som. Isso é algo que tento fazer quando estou na coxia, mas também no palco eu tento manter meus ouvidos abertos para estar bem afinada com o que está acontecendo.

Concerto na Chamber Music Society de Nova York. Foto de Kelly Neal.

Bela - Ela é especialmente boa nisso. Ela é a mais alerta no palco, nunca na vida encontrei alguém com esse nível de percepção, e acho que isso tem a ver com a sua personalidade também. Eu acredito que o jeito que você é como pessoa é o jeito como você faz música, é como você toca e encontra seu caminho, eu acho. E é assim que a Jacky é: o que você vê no palco é exatamente o que ela é pessoalmente.

Jacqueline - O mesmo com ele!

Bela - Não sei… Mas nunca na vida toquei com alguém que é tão alerta a tudo que está em torno, detalhes… isso significa saber como se colocar em primeiro, segundo, terceiro, o que for, em qual camada do grupo estar. Mas primeiro precisa saber a partitura geral, o que é mais e menos importante, a coisa toda. E isso ela tem, e é incrível a forma como faz, acontece muito naturalmente. Quando ela sabe que é hora de brilhar, não tem conversa, ela toma conta e é uma autoridade. Depois ela toca bem menos, porque sabe que sua parte não é a mais importante, mas ela está bem ali com você, sempre, você pode se mover para onde quiser, ralentar, acelerar, ela está lá com você, é incrível! Mas o que eu faço para a minha mente entrar nesse estado? (risos) Quando você fica nervoso, o coração começa a bater forte. Eu analiso e penso bastante: bem, o que é isso? Porque a gente fica nervoso, em primeiro lugar? Porque não é familiar. Ninguém sabe o que vai acontecer. Você não sabe o que vai dar errado, sabe? E acho que é isso que dá medo nas pessoas: o que não sabemos. Isso não tem a ver com quem está assistindo, não ligo para isso. Ok, isso não é totalmente verdade, se o Zukerman senta ali, ou alguns bons músicos, claro que eu ligo. Se bem que quando aparece alguém que é realmente bom e com quem me importo, isso me ajuda, me faz tocar melhor. Mas vamos fingir que é um público apenas de apreciadores de música. Não tenho ideia de quem eles são, então não tem porquê me importar com o que vão pensar de mim tocando. O que acontece é que eu mesmo me amedronto, porque não sei o que vai acontecer. Não é que o público me amedronta. E aí eu tenho que pensar comigo mesmo: se eu fiz o trabalho, se estudei como planejei e é um evento importante, não tenho nada com o que me preocupar, porque estou preparado. Posso me acalmar e dizer a mim mesmo: você já fez o que tinha que fazer, não tem razão para se preocupar. Agora, se eu não fiz o trabalho - e tiveram muitos concertos, ainda têm e provavelmente ainda terão, quando não gastei o tempo necessário no estudo - , nesse ponto estou contando com o quanto sei da peça e o quanto sei tocar violino, e de novo não tem razão para me preocupar, porque mesmo se eu tivesse trabalhado bastante, ainda poderia subir no palco e estragar tudo…

Jacqueline - Você não tem nada a perder.

Bela - Não tenho nada a perder, porque eu não investi nada, então vai dar tudo certo. Pode ser estranho, porque você pode achar que o concerto foi ok, sabendo que não se preparou, nesses casos o que faço é dizer “Bem, aquilo foi um desastre!”, mesmo achando que foi bem. Mas pode ser ao contrário, você acha que tocou realmente mal, mas aí foi bom e te dizem “Uau, isso foi incrível!”. É, mas não foi exatamente do jeito que eu queria. Então é isso que tento, raciocinar comigo mesmo para não me preocupar.

Jacqueline - Acho que esse processo mental de dominar o nervoso é muito bom. Para mim também funciona um processo físico, quando estou no palco. Por exemplo, tem uma passagem difícil chegando, certo? A mente começa a ir na direção de “Oh, meu Deus, e se algo ruim acontecer?”, começa a criar cenários, cenários perigosos que não aconteceriam se você não pensasse neles, sério! Fazer algo simples como inspirar, apenas respirar, me ajuda muito, porque fisicamente solta meus músculos e traz minha atenção para outra coisa. É aí que eu acho que a prática da ioga se conecta com tudo isso, porque fala muito sobre se focar na respiração enquanto permanece em posturas difíceis. E aí você tem a passagem difícil, mas sua mente está em outro lugar, sua mente está focando em respirar, e o pedaço já passou antes que você se dê conta. Às vezes tem uma passagem difícil para a mão esquerda chegando, ou essa mão está tensa, então eu tento colocar minha atenção na mão direita, pensar no arco, e vice-versa. Como por exemplo na sonata do Brahms em fa maior, o começo é um pesadelo! Quando você vai para uma competição, você chega no hotel e de todos os quartos você ouve esse começo, a mudança de posição para aquela nota difícil de alcançar. Está todo mundo estudando esse pedaço, é irritante. Porque é sempre um tiro, ou você acerta ou não. E quando estou no palco e tenho que tocar essa sonata, eu só tenho uma chance, quer dizer, tem a repetição, mas vai saber o que vai acontecer na repetição! Eu automaticamente vou “mão direita!”, é assim que vou distribuir meu arco nesse lugar, e aí tiro completamente o pensamento da mão esquerda. 9 em cada 10 vezes isso funciona.

Bela - É o único jeito.

Helena - Vocês tem livros que são importantes na sua vida artística? 

Jacqueline - Eu leio muitas biografias de intérpretes. Tem uma do Piatigorsky que eu amo. O Piatigorsky é um pouco minha figura de avô, sendo que Paul Katz foi meu professor, e ele começou com Piatigorsky. E de várias formas indiretas eu fui influenciada por ele, por como ele tocava. E essa é uma biografia que amo. Mas também adoro ler ficção, à parte. Porque no fim das contas música é sobre imaginação, para mim música também é sobre criar histórias, e comunicá-las. E nada se relaciona mais a isso do que literatura ficcional, então curto bastante.

Helena - Qual seu escritor ou escritora preferido?

Jacqueline - Ah, adoro Ted Dekker. Ele não é do circuito comercial, é um escritor cristão, mas não escreve apenas livros cristãos. Ele também faz ficção cristã, são bem imaginativos, algo tipo Nárnia, do C. S. Lewis. Os livros têm um enredo ideológico amarrando a história, mas também podem ter outros tópicos dependendo de como você vê.

Helena - E você, tem algum escritor preferido?

Bela - Eu não leio. 

Jacqueline - Mas eu vi que você tem um monte de livros!

Bela - Sim, eu tenho um monte de livros, mas nunca termino nenhum deles! (risos) Estou brincando… Eu leio coisas tipo biografias de músicos. Eu adoro esses livros, e você lê tanto sobre coisas que normalmente você não saberia. Você tem o livro do Heifetz, do Oistrakh, e de alguma forma o que eles fizeram, como fizeram, o que aconteceu e como aconteceu me dá inspiração. Isso é legal. Eu gosto de saber disso, sou meio rato de youtube, fico assistindo todos os violinistas. Tenho uma lista de pessoas que sempre dou uma olhada, gente do passado, gente do presente, dou uma olhada para ver se tem algo novo. E à parte isso, gosto de coisas de ciências, do espaço. Isso é o meu negócio, eu adoro. O Stephen Hawking tem um livro que eu gosto, o “The Theory of Everything”. Não terminei nenhuma dessas coisas, mas eu gosto.


Tem legendas em português ;-)



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