25/08/2014

QUANTAS HORAS POR DIA VOCÊ DEVERIA ESTUDAR?


por Dr. Noa Kageyama, publicado originalmente no blog do site The Bulletproof Musician

2 horas? 4 horas? 8 horas? 12 horas?
Quanto é suficiente?
Existe algo como estudar demais?
Existe um número ideal de horas que se deve estudar?

O QUE DIZEM OS ARTISTAS?

Alguns dos grandes artistas do século 20 compartilharam seus pensamentos sobre estas questões. Eu me lembro de ler uma entrevista do Rubinstein anos atrás, em que ele afirmou que ninguém deveria ter que estudar mais de quatro horas por dia, explicando que, se você precisava estudar mais de quatro horas por dia, você provavelmente não estava fazendo isso direito.

Outros grandes artistas expressaram sentimentos semelhantes. Diz-se que o violinista Nathan Milstein perguntou uma vez a seuprofessor Leopold Auer quantas horas por dia ele deveria estar estudando. Auer respondeu dizendo "Estude com os dedos e você precisará de todo o dia. Estude com sua mente e você vai fazer o mesmo em uma hora e meia".

Heifetz também apontou que nunca acreditou em estudar muito, e que o estudo excessivo é "tão ruim quanto estudar muito pouco!". Ele afirmou que estudava em média não mais do que três horas, e que não estudava aos domingos. Até que isso não é uma má idéia - um dos meus professores, Donald Weilerstein, uma vez sugeriu que eu estabelecesse um período de 24 horas a cada semana em que não era permitido pegar o instrumento.

O QUE DIZEM OS PSICÓLOGOS?

Quando se trata de entender desempenho especializado, o psicólogo Dr. K. Anders Ericsson é talvez das maiores autoridades do mundo. Sua pesquisa é a base para a "regra dos dez anos" e "regra das 10.000 horas", que sugere que é preciso pelo menos 10 anos e/ou 10.000 horas de prática deliberada para atingir um nível expert de desempenho em qualquer campo - e no caso de músicos, muitas vezes mais perto de 25 anos para atingir um nível internacional de elite. Note que a verdadeira chave aqui não é a quantidade de estudo necessária (assim como o número exato de horas é discutível), mas o tipo de estudo necessário para se atingir um nível expert de performance. Em outras palavras, só ficar estudando de qualquer jeito não resolve.

QUANDO A MENTE NÃO ESTÁ PRESENTE NO ESTUDO

Alguma vez você já ouviu alguém estudando? Você já se ouviu estudando? Grave seu estudo por uma hora, passeie pela escola e dê uma espiada nos seus colegas estudando, ou peça a seus alunos para fingir que estão em casa e assista-os estudar durante uma aula. O que você observa?

Você vai notar que a maioria das pessoas estuda sem pensar, ou engajando-se em mera repetição ("repita essa passagem 10 vezes" ou "estude esta peça por 30 minutos") ou estudando no piloto automático (que é quando vamos tocando a peça até ouvir algo que não gostamos, paramos, repetimos a passagem até que soe melhor, e continuamos a tocar a peça até a próxima coisa que não gostamos, e nesse ponto recomeçamos o processo todo).

Existem três grandes problemas com esse método “desatento” de estudar:

1. É uma perda de tempo

Por quê? Por um lado, muito pouco aprendizado produtivo acontece quando estudamos dessa forma. É assim que se pratica uma peça por horas, dias ou semanas, sem sentir muita melhora. Pior ainda, na verdade você se mete num buraco quando estuda desta forma, porque o que este método faz é fortalecer hábitos indesejáveis ​​e erros, com certeza tornando mais provável que você erre sistematicamente no futuro. Fica mais difícil corrigir esses hábitos depois – na realidade você está aumentando a quantidade de tempo de estudo que será necessário no futuro para eliminar esses maus hábitos e tendências. Uma vez trabalhei com um professor de saxofone que gostava de lembrar aos seus alunos que "A prática não torna perfeito, a prática torna permanente.".

2. Te deixa menos confiante

Além disso, estudar desta forma desatenta fere a sua confiança, porque há uma parte sua que percebe que você na verdade não sabe como produzir de forma consistente os resultados que procura. Mesmo que você consiga um grau de sucesso bastante elevado nas passagens mais difíceis através de estudo desatento, e achar que você pode acertar 3 ou 4 de cada 5 tentativas, sua confiança não vai crescer muito com isso. Confiança real no palco vem de (a) ser capaz de acertar em cheio 10 de 10 tentativas, (b) saber que isto não é uma coincidência, mas que você pode fazê-lo da maneira correta quando quiser, porque o mais importante (c) é que você sabe exatamente por que acerta ou erra – por exemplo: você sabe exatamente o que precisa fazer, a partir de um ponto de vista técnico, para tocar a passagem perfeita toda vez.

Pode ser que você não seja capaz de tocar perfeitamente toda vez no início, mas é para isso que a repetição serve - para reforçar os hábitos corretos até que eles sejam mais fortes do que os maus hábitos. É um pouco como fazer crescer um gramado bonito. Em vez de lutar uma batalha sem fim contra as ervas daninhas, o seu tempo é melhor gasto tentando cultivar a grama para que ao longo do tempo a grama expulse as ervas daninhas.

E aqui está o problema. Temos a tendência de estudar inconscientemente, e depois tentamos nos apresentar conscientemente - não uma grande fórmula para o sucesso. Lembre-se deste artigo, que existe uma tendência a mudar para o modo hiper-analítico do lado esquerdo do cérebro quando se pisa no palco. Bem, se você tiver feito a maior parte de seu estudo inconscientemente, você realmente não sabe como tocar a sua peça perfeita sob comando. Quando seu cérebro de repente entra em modo super-consciente, você fica doido, porque você não sabe quais instruções dar para o seu cérebro.

3. É tedioso e chato

Estudar sem pensar é uma tarefa árdua. A música talvez seja uma das únicas atividades baseadas em habilidade onde os objetivos do estudo são medidos em unidades de tempo. Todos nós já tivemos professores que nos disseram para ir para casa e estudar uma certa passagem x número de vezes, ou estudar um x número de horas, certo? O que realmente precisamos são metas de resultados mais específicos – como: praticar esta passagem até que soe como _____; ou: estudar esta passagem até descobrir como fazer soar _____.

Afinal de contas, realmente não importa quanto tempo passamos estudando algo - só que a gente saiba como produzir os resultados que queremos, de forma consistente, ao nosso comando.

ESTUDO DELIBERADO

Então, o que é estudo deliberado ou consciente? O estudo deliberado é uma atividade sistemática e altamente estruturada, que é, por falta de uma palavra melhor, científico. Ao invés do desatento “tentativa e erro”, é um processo ativo e pensativo de experimentação com objetivos e hipóteses claros. O violinista Paul Kantor disse uma vez que a sala de estudo deve ser como um laboratório, onde se pode brincar com idéias diferentes, tanto musicais e técnicas, para ver qual combinação de ingredientes produz o resultado que você está procurando.

O estudo deliberado é muitas vezes lento, e envolve a repetição de pequenas e muito específicas partes de seu repertório, em vez de apenas tocar da capo ao fim (por exemplo: trabalhar só a primeira nota do seu solo para se certificar de que ela "fala" exatamente do jeito que você quer, em vez de tocar toda a frase de abertura).

O estudo deliberado envolve o monitoramento do desempenho (em tempo real, mas também por meio de gravações), sempre à procura de novas maneiras de melhorar. Isto significa realmente ouvir o que acontece, de modo que você pode dizer-se exatamente o que deu errado. Por exemplo, a primeira nota foi alta? Baixa? Muito forte? Muito mole? Muito dura? Muito curta? Muito longa?

Vamos dizer que a nota era muito alta e muito longa, e o ataque não foi suficiente para começar a nota. Bem, quão alta era? Um pouco? Um monte? Quanto ela foi mais longa? Quanto mais de ataque você queria?

Ok, a nota foi um pouco alta, apenas um cabelo mais longa, e exigia um ataque muito mais claro, a fim de ser coerente com a articulação e dinâmica escritas. Então, por que a nota saiu alta? O que você fez? O que você precisa fazer para ter certeza de que a nota sairá afinada toda vez? Como você garante que a duração é exatamente o que você quer que seja, e como você consegue um ataque sempre limpo e claro para começar a nota, iniciando assim a música no caráter certo?

Agora, vamos imaginar que você gravou tudo isso e pode ouvir como esta última tentativa soou. Será que essa combinação de ingredientes te dá o resultado desejado? Em outras palavras, será que essa combinação de ingredientes transmite o clima ou personagem que você quer ao ouvinte da forma eficaz como você imaginou?

Poucos músicos gastam tempo analisando o que deu errado, por que isso aconteceu, e como eles podem corrigir o erro de forma permanente.

QUANTAS HORAS POR DIA EU DEVERIA ESTUDAR?

Você vai descobrir que o estudo deliberado é muito desgastante, dada a enorme quantidade de energia necessária para manter todos os recursos de atenção na tarefa em questão. Estudar mais de 1 hora de uma só vez pode ser improdutivo e sendo bem honesto, talvez nem mesmo mentalmente ou emocionalmente possível. Mesmo os indivíduos mais dedicados terão dificuldade para estudar mais de quatro horas por dia.

Estudos sobre o assunto têm variado a duração da prática diária de 1 até 8 horas, e os resultados sugerem que muitas vezes há pouco benefício em praticar mais de 4 horas por dia, e que os ganhos realmente começam a declinar após a marca de 2 horas. A chave é manter o controle sobre o nível de concentração que você consegue sustentar.

5 CHAVES PARA UM ESTUDO MAIS EFICAZ

1. Duração

Mantenha sessões de estudo limitadas a uma duração que lhe permita manter o foco. Isso pode ser de 10-20 minutos para os alunos mais jovens, e de 45-60 minutos para os indivíduos mais velhos.

2. Hora do dia

Observe quais são as horas do dia que você tende a ter mais energia. Pode ser assim que acorda de manhã, ou logo antes do almoço, etc. Tente estudar durante esses períodos naturalmente produtivos, pois estes são os momentos em que você vai ser capaz de se concentrar e pensar com mais clareza.

3. Metas

Tente usar um caderno de estudo. Registre os seus objetivos no estudo e o que você descobre durante suas sessões. A chave para entrar na "zona" quando se estuda é constantemente se esforçar para ter clareza de intenção. Em outras palavras, ter uma ideia clara do som que você quer produzir, ou fraseado especial que você gostaria de testar, ou articulação específica, afinação, e outras coisas que você gostaria de tocar de forma consistente.

Quando você descobrir alguma coisa, escreva-a. Estudando mais conscientemente, eu comecei a aprender tanto durante minhas sessões de estudo que se eu não anotasse tudo, eu esqueceria.

4. Mais inteligente, não mais tempo

Às vezes, se uma determinada passagem não está saindo do jeito que queremos, significa apenas que temos de estudar mais. Há também momentos, no entanto, quando não precisamos estudar mais tempo, mas de estratégia ou técnica completamente diferentes.

Lembro-me de brigar com a variação dos pizzicati de mão esquerda do Capricho 24 de Paganini. Eu estava ficando frustrado e continuei tentando cada vez mais arduamente fazer as notas soarem, mas tudo que consegui foram dedos doloridos, na verdade dois deles começaram a sangrar. Percebi que tinha que ter uma maneira mais inteligente, mais eficaz de alcançar o meu objetivo.

Em vez de insistir numa estratégia ou técnica que não estava funcionando para mim, eu me forcei a parar de estudar este pedaço completamente. Tentei pensar e descobrir soluções diferentes para o problema por um ou dois dias, e anotei as ideias que foram me ocorrendo para experimentar depois. Quando eu senti que tinha algumas soluções promissoras, comecei só experimentando. Eu eventualmente consegui uma solução, que trabalhei ao longo da semana seguinte ou um pouco mais, e quando eu toquei o Capricho para meu professor, na verdade ele que me perguntou como fiz as notas soarem tão claras!

5. Modelo de solução de problemas

Considere este modelo geral de resolução de problemas em 6 etapas, resumidas a seguir (adaptado de vários processos de resolução de problemas da internet).

1.       Defina o problema (como eu quero que esta nota/frase soe?)
2.       Analise o problema (o que está causando isso soar assim?)
3.       Identifique possíveis soluções (o que eu posso alterar para fazê-lo soar mais como eu quero?)
4.       Teste as soluções potenciais para selecionar a mais eficaz (quais ajustes parecem funcionar melhor?)
5.       Implemente a melhor solução (torne essas alterações permanentes)
6.       Monitore a implementação (essas mudanças continuam a produzir os resultados que eu estou procurando?)

Ou mais simples ainda, confira este modelo do livro de Daniel Coyle, O Código do Talento.

1.       Escolha um alvo
2.       Vá alcançá-lo
3.       Avalie a distância entre o alvo e o que você alcançou
4.       Retorne ao passo um

Não importa se estamos falando de aperfeiçoamento de técnica, ou experimentações com diferentes ideias musicais. Qualquer modelo que incentive um pensamento mais inteligente, sistemático e ativo, e metas mais claramente articuladas, vai ajudar a reduzir o tempo desperdiçado, ineficiente de estudo.

Afinal, quem quer passar o dia todo na sala de estudo? Entre, resolva as coisas, e saia!

ATUALIZAÇÃO: acha que tudo isso só se relaciona com a música clássica? Aficionados de jazz, confiram este post sobre estudar eficazmente escrito pelo aclamado violinista de jazz Christian Howes para uma perspectiva útil e dicas sobre estudar jazz. Curiosamente, estávamos juntos no curso Suzuki em Columbus, Ohio, quando crianças.

ATUALIZAÇÃO n.2: me deparei com este post bem pensado sobre o estudo deliberado escrito por um astuto jovem violoncelista na Universidade Northwestern.

ATUALIZAÇÃO n.3: e um excelente texto instiga-pensamentosobre o estudo deliberado para pessoas em negócios e outras áreas não-musicais (e um blog fascinante além disso). 

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Dr. Noa Kageyama é um violinista que resolveu partir para a área da Psicologia da Performance e hoje integra o corpo docente da Juilliard School e New World Symphony em Miami, além de ser convidado das principais instituições de ensino de música nos EUA, ensinando músicos como tocar o seu melhor sob pressão através de aulas ao vivo, treinos e um curso on-line.

Tradução autorizada, por Helena Piccazio.

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