28/01/2016

COMO ACABAR COM FALHAS DE MEMÓRIA

por Dr. Noa Kageyama, publicado originalmente no blog do site The Bulletproof Musician


Ter um branco no meio de um concerto é provavelmente uma das coisas mais constrangedoras que podem acontecer a um músico. Para muitos artistas esse é o aspecto que mais deixa nervoso em performances ao vivo. E nem mesmo os melhores estão imunes a problemas de memória - ficamos sabendo de grandes concertistas que cometem alguns deslizes desse tipo ao longo do tempo.

Eu tive minha cota de brancos, é claro, desde a versão menos embaraçosa (dar um branco em um pequeno concerto informal) até o verdadeiramente humilhante (perder-se em uma peça solo de Bach na segunda fase de uma competição internacional). No entanto, quando eu era estudante, eu nunca aprendi a memorizar música. Ou, mais especificamente, eu nunca desenvolvi um sistema confiável para memorizar música.


Bons “lembradores” tendem a reconhecer que a sua memória não é infalível, e não só usam estratégias de memorização, mas sabem quais funcionam ou não para eles. “Lembradores” ruins tendem a presumir (ou esperar) que não vão esquecer, e não fazem uso explícito de nenhuma estratégia específica. Eu tenho que admitir, eu estava neste segundo grupo durante a maior parte da minha vida.

Livros inteiros foram escritos sobre a memória, psicólogos e neurocientistas fazem novas descobertas sobre aprendizagem e memória o tempo todo. Embora boa parte disso seja realmente fascinante, uma discussão sobre as engrenagens da memória está além do âmbito deste post. Por agora, vou direto às coisas boas: quatro estratégias-chave para a memória (e suas implicações para os músicos) que se tornarão indispensáveis nas suas tentativas de desenvolver uma memória mais “à prova de balas”.

Sem mais delongas, aqui estão elas:

Estratégia n.1: Ensaio

Este é um óbvio, talvez, mas repetição e estudo aumentam a força com que a música é gravada em nossa memória. Entretanto, o estudo da maioria de nós pode ser melhor descrito como repetição mecânica, um mero tocar de novo e de novo sem realmente pensar no que estamos fazendo - só na expectativa de que a memória muscular sozinha cuide das coisas no palco.

O objetivo aqui é a) variar as diferentes maneiras com que estudamos e gravamos a música em nossa memória e b) forçar-nos a recordar as informações que precisamos através de métodos diferentes.

Por exemplo:

. Veja se você consegue cantarolar ou solfejar a peça toda, sem consultar a partitura.
. Veja se você consegue “tocar” a peça em seu instrumento - sem fazer nenhum som.
. Veja se você consegue visualizar a partitura em sua cabeça e mentalmente “tocar” a peça inteira sem parar.
. Veja se você consegue “ouvir” mentalmente a si mesmo tocar a peça inteira sem parar.
. Tente fechar os olhos e estudar mentalmente a peça do começo ao fim, “sentindo-se” tocar a peça em seu instrumento, “ouvindo” os sons desejados sendo produzidos, e talvez até mesmo “vendo” as notas que passam na partitura. Você consegue passar a peça sem se enroscar?

Ótimo! Para a próxima estratégia!

Estratégia n.2: Organização

Organização refere-se a organizar o material a ser aprendido em grupos, subgrupos e hierarquias de subgrupos.

Em outras palavras, dê uma olhada na estrutura musical da peça. Como a sua parte se encaixa com outro(s) instrumento(s) envolvido(s)? Quais são os valores reais das notas, a dinâmica, as indicações de andamento, etc.?

Pronto para um desafio? Sente-se com algumas folhas de papel pentagramado e escreva à mão toda a peça, de cabeça.

Entendeu? Próxima!

Estratégia n.3: Elaboração

Elaboração significa ir acima e além da mera repetição e aprendizagem mecânica, através da atribuição de significado ao material.

Isto significa fazer da peça mais do que apenas uma coleção de notas e sons, dando-lhe mais vida ao identificar imagens mentais, cenas, histórias, diálogos, rostos, personalidades, características, emoções e assim por diante, que podem ser ligados às notas, gestos, frases, seções e movimentos que compõem uma peça musical.

Quanto mais vivos e específicos forem esses elementos, e quanto mais claro for para você como produzi-los através de sua música, mais fortemente a peça será gravada em seu cérebro e maior a possibilidade de você conseguir transmitir suas idéias ao público logo de cara.

Quando eu era criança, minha mãe e eu nos sentávamos com uma peça nova, e trabalhávamos nosso caminho através da partitura, literalmente criando imagens visuais para acompanhar diferentes frases e seções da peça, e usando lápis de cor para desenhar/colorir essas imagens na própria partitura. Minhas partis antigas parecem livros para colorir. Isso parece coisa que só criança faz? Talvez, mas eu nunca tive problema algum de memória até que “fiquei muito grande” para esta estratégia e parei de usar.

Crie um conjunto vívido de cenas, personagens, etc. para cada uma das secções e frases da peça. Desenhe-os em papel, se quiser, e seja muito claro em sua própria mente sobre o que você vê.

Estratégia n.4: Método de Loci

Eu vi pessoas se referirem a essa estratégia por outros termos (por exemplo, "castelo de memória"), mas o método da estratégia loci é quando se liga o novo material aos elementos de uma rotina ou local familiar, ou locomoção diária, ou cidade natal ou residência atual.

Malcolm Lowe observou certa vez que conceitua cada peça como uma jornada ou viagem, imaginando o início da peça como ponto de partida (digamos, talvez saindo pela porta de casa), e aí traçando uma rota através da música até o fim, ao longo de um caminho imaginário (por exemplo, parando em um parque, sentado ali num banco, alimentando os pássaros, vendo o show de um mímico, caminhando por um bosque de árvores, sendo respingado de água pelas fontes, observando algumas crianças jogando bola, comendo um cachorro-quente, encontrando um amigo, relembrando bons momentos juntos, voltando para casa, etc.).

Você tem a sua peça “mapeada”?

Se você tiver passado por todas as quatro estratégias, e aplicado seriamente cada uma delas, você vai chegar ao ponto em que não consegue tirar a música da cabeça, mesmo que você queira.

Mas isso tudo parece uma quantidade horrível de trabalho...

É um pouco demais? Bem, talvez sim, mas quão divertido é só ficar repetindo sem pensar?

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Dr. Noa Kageyama é um violinista que resolveu partir para a área da Psicologia da Performance e hoje integra o corpo docente da Juilliard School e New World Symphony em Miami, além de ser convidado das principais instituições de ensino de música nos EUA, ensinando músicos como tocar o seu melhor sob pressão através de aulas ao vivo, treinos e um curso on-line.

Tradução autorizada, por Helena Piccazio.

3 comentários:

  1. Nossa, quanta dica legal tem o seu blog! Não pare!!!!!

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  2. Nossa, quantas dicas legais! Não pare!!!

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  3. A memória falha mesmo, faz parte. O bom é trabalhar a mente e anotar né? rs muito bom esse blog mesmo! Obrigada!

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