17/11/2015

COMO EU AQUEÇO (E OUTRAS COISAS) - ESZTER LESTÁK

Eszter Lesták. Foto: Mózsi Gábor

Em junho de 2015 Eszter Lesták veio com a Orquestra do Festival de Budapeste de apresentar em São Paulo na temporada de concertos Cultura Artística. Tive o prazer de ser intérprete na masterclass de violino que ela deu na EMESP, que foi ótima. A entrevista que segue foi feita logo depois, e conversamos desde aquecimento até preparação para testes.


Helena Piccazio - Vamos começar falando sobre aquecimento?

Eszter Lesták - Aquecer é muito importante. Todo dia, antes de eu começar a estudar, eu faço escalas. Eu prefiro o Sistema de Escalas do Flesch, com oitavas, terças, quintas, sextas e décimas.

HP - Você as faz todo dia?

EL - Se eu tenho tempo suficiente, todo dia. Eu tenho 44 anos e 3 filhos, então normalmente eu não tenho tempo, não dá para fazer isso todo dia, mas é muito útil, ajuda bastante.

HP - Você faz escalas com ritmos e arcadas diferentes?

EL - Faço como está escrito no Flesch, está tudo lá. Estudar lento também é sempre muito importante. E temos que estudar em tempo lento como vamos tocar no tempo correto, temos que fazer as mesmas coisas devagar, com metrônomo, controlar a afinação, os movimentos, gravar audios, gravar videos para checar o que estamos fazendo.

HP - Quanto tempo dura o seu aquecimento quando você tem tempo?

EL - Pelo menos meia hora.

HP - E você faz outros exercícios além das escalas, como exercícios para o arco, vibrato, mudança de posição? Quais exercícios você faz ou quais você recomendaria aos estudantes?

EL - Se eu tenho tempo, eu faço outros exercícios sim. Toco uma nota bem longa com arco extremamente lento, em forte, claro. Do talão à ponta, e depois volta.

HP - E quão lento seria isso, se você puser o metrônomo, por exemplo, a 60, quantas batidas você contaria para um arco?

EL - Cada arco tem que durar meio minuto, 30 segundos, o mais lento possível. Também é bom tocar notas sem vibrato. Exercitar diferentes tipos de vibrato. Usar a ponta do arco, que é tão longe, para conseguir um som real, aquele som bom, na ponta também.

HP - Você faz todo dia a mesma rotina de exercícios ou você varia, a cada dia você muda um pouquinho?

EL - Sim, eu mudo, claro. No Sistema de Escalas do Flesch tem as tonalidades e cada dia eu toco só uma tonalidade, e tem 3 páginas de exercícios para cada tonalidade, então toma tempo fazer uma tonalidade inteira.

HP - Então no outro dia você muda a tonalidade, mas com os mesmos exercícios.

EL - Sim.

HP - E para as outras coisas como arco, mudanças de posição, etc., você mantém os mesmos?

EL - Sim.

HP - Você tem aquecimentos diferentes para situações diferentes, para estudar, se apresentar, para a orquestra, música de câmara ou para solar?

EL - Não. Não tem diferença para mim.

HP - Tem alguma mudança na sua rotina no dia em que você tem que se apresentar em algum concerto grande e importante?

EL - Se eu tenho oportunidade de tocar algo sozinha, como solista, que tenho tido frequentemente, isso precisa de outro estado mental, eu acho, outro timing, outra organização, então, isso é bem diferente.

HP - Você faz alongamento?

Foto: Helena Piccazio
EL - Sim, exercícios de Pilates, que gosto muito, e Ioga, muito útil.

HP - Você os faz logo antes de estudar ou tocar?

EL - Sim, sim, é necessário alongar os músculos. Eu tenho cinco ou seis exercícios de alongamento para antes de estudar e para depois de estudar. É muito importante.

HP - Você faz exercícios de concentração? Alguma rotina para colocar sua mente no estado certo?

EL - Eu não preciso.

HP - Uma última pergunta sobre aquecimento: como você se mantém violinisticamente em forma em turnês?

EL - Eu estudo todo dia. Eu posso estudar todo dia porque não toco contrabaixo ou percussão (risos). Eu posso carregar meu instrumento comigo e estudo no quarto do hotel. De manhã, e sem surdina. Geralmente viajo com orquestra, então no quarto ao lado normalmente tem algum outro violinista.

HP - Isso ajuda!

EL - Sim, bastante!

HP - Agora vamos à música de câmara. Qual o nome do Festival que você vai sempre?

EL - Kaposfest, na Hungria. É um festival que tem 5 anos de idade, e esse ano foi minha 4a oportunidade de ir lá. Dura uma semana com 2 concertos por dia.

HP - E não tem parte didática, apenas concertos?

EL - Talvez alguns pequenos cursos para crianças menores de 14 anos.

HP - Você conhece alguma rotina de aquecimento para grupos de câmara?

EL - Sim, eu toco num quarteto de cordas também, que se chama Pulzos Quartet, significa pulso em húngaro, e quando nós estamos aprendendo uma música nova a gente sempre separa a parte mais difícil da peça e toca junto bem lentamente, aos pares: eu com o primeiro violino, a viola e eu, o cello e eu.

HP - Todas as combinações de pares.

EL - Sim, exato. Muito lento e totalmente afinado. Normalmente esse é o nosso aquecimento.

HP - Agora, por exemplo, a gente acabou de vir da EMESP, e lá tem muitos grupos de câmara. O que você aconselha que eles façam como exercício?

EL - Escalas, elas são muito boas, escalas em grupos, todos na mesma nota. Prestar atenção um ao outro, para afinação, produção de som, as mesmas dinâmicas, eu acho isso muito importante.

HP - E tem diferença nesses exercícios em grupos com piano ou sem piano, principalmente para afinação?

EL - Sim. Se tem piano isso ajuda a afinar porque ele é uma referência fixa, mas se não tem piano, a gente tem que encontrar exatamente a mesma afinação em cada nota, isso é essencial, mesmo em tonalidades loucas como la bemol menor.

HP - Eu assisti um video no Youtube de você com um quarteto tocando Mozart e adorei! Muito bonito, super afinado!

EL - (risos) Ah, obrigada! Esse foi no Kaposfest com Alina Ibragimova, esse não é meu quarteto, esse é só para o Festival. Mas é claro que nós fazemos o mesmo com meu quarteto!

HP - E vocês todos estudam a Partitura (a “grade”, com todas as vozes)?

EL - Sim, no quarteto, a gente têm que estudar a Partitura, senão não é suficiente. A gente têm que saber cada nota da parte dos outros. É necessário, mesmo num quarteto do Bártok.

HP - Especialmente num quarteto do Bártok!

EL - Sim, claro! Os quartetos de Haydn são muito fáceis, a gente nem precisa mais usar a Partitura porque conseguimos ouvir tudo que está lá. Mas hoje em dia, depois de 13 anos tocando juntos...

HP - Seu quarteto está junto há 13 anos?

E. Lesták com a Erkel Ferenc Chamber Orchestra no Kaposfest
2015. Solista: Kristóf Baráti. Foto: Mózsi Gábor

EL - Sim. E eu tenho uma orquestra de câmara que tem 30 anos! Se chama Erkel Ferenc Chamber Orchestra. E nós vamos para o Kaposfest e seremos a orquestra de câmara residente da próxima edição do festival (que foi em agosto de 2015). Eu sou a spalla, então estou muito feliz! Yes!

HP - Que legal! Parabéns! Agora o último tópico: processo para testes.

EL - Ah, isso é difícil... Tem uma coisa fundamental: é muito importante tocar peças inteiras, muitas vezes. Se eu quero preparar algo, eu estudo todos os detalhes, todas as coisas, e quando eu pego a peça para tocar, eu tenho que tocar inteira três vezes seguidas. Se eu consigo tocar bem 3 vezes seguidas, aquela uma que preciso sairá perfeita. É uma técnica muito boa.

HP - A questão é que as pessoas tendem a ficar muito nervosas quando fazem testes, então como elas podem se ajudar durante o estudo, você tem alguma dica pra isso?

EL - Quando eu fiz a audição para esta orquestra, a Orquestra do Festival de Budapeste, me dei conta que ficaria extremamente nervosa, como todo mundo. Então fiz várias audições pessoais, eu toquei o repertório todo da audição para o meu ursinho de pelúcia, para minha mãe, para o cachorro (eu não tenho cachorro, mas algumas pessoas têm), para os meus colegas - nesse eu estava bem nervosa. Toquei antes da minha audição real pelo menos 6 vezes, em 6 dias diferentes, e quando chegou a hora H, eu estava um pouco mais calma.

HP - Então você estuda a situação, certo?

EL - Sim, se habituar à situação.

HP - E quando você estudou o repertório do teste, você estudou usando a Partitura?

EL - Sim. E gravações também. A gente tem que saber tudo sobre a peça.

HP - Repertório violinístico e orquestral?

EL - Sim, claro. A gente tem que saber o todo. E também é muito útil fazer gravações de video e audio, para se checar e controlar.

HP - Alguma dica final?

EL - Muitas horas de sono, menos álcool... vida saudável, correr. É isso!

Selfie com E. Lesták

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